Triste Incidente...
"Ia a caravana a bom termo (...) quando ocorrre um imprevisto. (...) Minúscula pedra ferira levemente o rosto de Lívia, determinando grande alarme na massa enorme de servos e cavaleiros.
Sulpício, num golpe de vista, dá largas ao galope da montada, buscando prender um jovem que se afastava, receoso, das margens do caminho. E, culpado ou não, foi um rapaz dos seus dezoito anos apresentado aos viajantes, para a punição necessária.
Públio Lentulus recordou a recomendação de Flámínio, momentos antes da partida, e, sopitando os seus melhores sentimentos de tolerância e generosidade, resolveu prestigiar a sua posição e autoridade aos olhos de quantos houvessem de lhe seguir a permanência naquele país estrangeiro. (...) Determinou que vergastassem sem comiseração o rapaz, pela sua leviandade.
A cena era desagradável e dolorosa.
Todos os servos acompanhavam, compungidos, o estalar do chicote no dorso seminu daquele homem ainda moço, que gemia, em soluços dolorosos, sob o látego despótico e cruel.
Ninguém ousou contrariar as ordens impiedosas, até que Lívia, não conseguindo contemplar por mais tempo a rudeza do espetáculo, pediu ao esposo, em voz súplice;
- Basta, Públio, porque os direitos da nossa condição não traduzem deveres de impiedade...
O senador considerou, então, a sua severidade excessiva e rigorosa, ordenou a suspensão do castigo doloroso, mas, a uma pergunta de Sulpício, quanto ao novo destino do infeliz, falou em tom rude e irritado:
- Para as galeras!...
Os presentes estremeceram, porque as galeras significavam a morte ou a escravidão para sempre.
O desventurado amparava-se, exânime, nas mãos dos centuriões que o rodeavam, porém, ao ouvir as três palavras da sentença condenatória, deitou ao seu orgulhoso juiz um olhar de ódio supremo e de supremo desprezo. No âmago de sua alma coriscavam relâmpagos de vingança e de cólera, mas a caravana pôs-se novamente a caminho, entre o ruído dos carros pesados e o tilintar das armaduras, ao movimento dos cavalos fogosos e irrequietos."

O incidente com o jovem iria causar lágrimas amargas no seio da família Lentulus...
Escrito por Fátima Fernandes às 19h36
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Chegada...
Entre suas cismas e as preces da esposa, estava a terminar a travessia do Mediterranêo, quando Públio chamou a atenção do seu servo de confiança, nestes termos:
"- Comênio, dentro em pouco estaremos às portas de Jerusalém; mas antes que isso se verifique, temos de realizar pequena marcha, depois do ponto de desembarque, reclamando-se muito cuidado de minha parte, com relação ao transporte da família. Esperam-se alguns representantes da administração da Judeia, mas certamente estaremos acompanhados dos teus cuidados, pois vamos aportar a região para mim desconhecida e estrangeira. Reúne todos os servos sob as tuas ordens, de modo a garantirmos absouta segurança pelo caminho.
- Senhor, contai com o nosso desvelo e dedicação - respondeu o servidor, entre respeitoso e comovido."
No dia imediato, desembarca a comitiva na Palestina, sendo recebida por lictores e numerosos soldados pretorianos, chefiados por Sulpício Tarquinius.
Quando pôs-se a caminho, a caravana mais parecia um expedição militar que simples transporte de família...

Flores no deserto...
Escrito por Fátima Fernandes às 20h35
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Apreensões...
"Últimas despedidas (...) derradeiros abraços comovidos e largava a galera suntuosa, onde a bandeira da águia romana tremulava orgulhosa, ao sopro suave das virações marinhas. (...)
Transcorria a viagem com o máximo de serenidade.
Públio Lentulus, não obstante a beleza da paisagem na travessia do Mediterrâneo e a novidade dos aspectos exteriores, considerada a monotonia dos seus afazeres na vida romana, junto dos numerosos processos do Estado, tinha o coração cheio de sombras.
Debalde a esposa procurara aproximar-se do seu espírito irritado, buscando tanger assuntos delicados de família, com o fim de conhecer e suavizar-lhe os íntimos dissabores.
Experimentava ele a impressão de que caminhava para emoções decisivas do desenrolar de sua existência.
Conhecera parte da Ásia, porque, na primeira mocidade, havia servido um ano na administração de Esmirna, de modo a integrar-se, da melhor maneira, no mecanismo dos trabalhos do Estado, mas não conhecia Jerusalém, onde o esperavam como legado do Imperador, para a solução de vários problemas administrativos de que fôra incumbido junto ao governo da Palestina.
Como encontraria o tio Sálvio, mais moço que seu pai? Há muitos anos não o via pessoalmente; entretanto, era pouco mais velho do que ele próprio. E aquela Fúlvia, leviana e caprichosa, que lhe desposara o tio no torvelinho dos seus numerosos escândalos sociais, tornando-se quase indesejável no seio da família?
Recordava mais íntimos pormenores do passado, abstendo-se todavia, de comunicar à mulher as mais penosas expectativas.
Refletindo, igualmente, na situação da esposa e dos dois filhinhos, encarava com ansiedade os primeiros obstáculos à sua permanência na Judeia, na qualidade de patrícios, mas também como estrangeiros, considerando que as amizades que os aguardavam eram problemáticas."

Paisagem do Mar Mediterrâneo
Escrito por Fátima Fernandes às 14h01
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Um conselho...
Findos os preparativos para a viagem, vamos encontrar a Família Lentulus instalada numa galera confortável e elegante.
Os dois amigos senadores trocavam impressões, ouvindo Públio esta recomendação de Flamínio:
" - Sabes que os súditos conquistados pelo Império muitas vezes nos olham com inveja e despeito, tornando-se preciso nunca desmerecermos nossa posição de patrícios.
Algumas regiões da Palestina, segundo os meus próprios conhecimentos, estão infestadas de malfeitores e é necessário estejas precavido contra eles, principalmente na tua marcha em demanda de Jerusalém. Leva contigo, tão logo aportes com a família, o maior número de escravos para a tua garantia e dos teus, e, na hipótese de ataques, não hesites em castigar com severidade e aspereza.
Públio recebeu a exortação, atenciosamente(...)."

Escrito por Fátima Fernandes às 22h06
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