Ambiente hostil e sensibilidade feminina...
"Públio Lentulus, após o incidente com do prisioneiro, que continuava a considerar como episódio sem importância, retomava certa serenidade para o desempenho de suas obrigações. Os aspectos áridos de Jerusalém tinham, para seus olhos cansados, encanto novo, no qual o pensamento repousava das numerosas e intensas fadigas de Roma.
Quanto à Lívia, esta guardava o coração voltado para seus afetos distantes, analisando a aridez dos espíritos ao alcance de seu convívio. Como por milagre, a pequena Flávia havia melhorado, observando-lhe notável transformação das feridas que lhe cobriam a epiderme. Mas, as atitudes hostis de Fúlvia (...) deixavam-lhe o espírito aturdido num turbilhão de expectativas alucinantes. Semelhantes acontecimentos eram desconhecidos do marido, a quem a pobre senhora se abstinha de relatar os seus mais íntimos desgostos.
Além de tudo isso, Pôncio Pilatos comparecia diariamente à residência do pretor, a pretexto de predileção pela palestra com os patrícios recém-chegados da Corte. (...) Lívia, com as secretas intuições de sua alma, compreendia os pensamentos inconfessáveis do governador a seu respeito, recebendo-os de espírito prevenido.
Nessas aproximações de sentimentos (...) via-se também a contrariedade de Fúlvia, tocada de venenoso ciúme em face da situação que a atitude de Pilatos ia criando.
Por detrás daqueles bastidores brilhantes do cenário da amizade artificial, com que foram recebidos, Públio e Lívia deveriam compreender que existia um marnel de paixões inferiores, que, certo, haveria de tisnar a tranqüilidade de suas almas. Não entenderam, todavia, os detalhes da situação e penetraram de espírito confiante e ingênuo no caminho escuro e doloroso das provações que Jerusalém lhes reservava."

Deserto...
Escrito por Fátima Fernandes às 21h46
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