O auditório se contagiara da comoção da narrativa, escutando a palavra de Sulpício como maior interesse.
Questionado por Pilatos sobre seu "entusiasmo" com o Profeta, o lictor justificou-se:
"Considerei, igualmente, de pronto, que as doutrinas por ele pregadas são subversivas e perigosas, por igualarem os servos aos senhores, mas observei, também, as suas penosas condições de pobreza, consideradas por seus discípulos e seguidores como um estado alegre e feliz, o que, de algum modo, não constitui motivo de receio para as autoridades provinciais.
Além disso, essas pregações não prejudicam os camponeses, porque são feitas geralmente nas horas de ócio e descanso, no intervalo dos trabalhos de cada dia, notando-se igualmente que os seus companheiros prediletos são os pescadores mais ignorantes e mais humildes do lago.
(...)
Não me sinto impressionado, como supondes, tanto assim que, notando-lhe a originalidade simples e formosa, não lhe reconheço privilégios sobrenaturais e acredito que a ciência do Império elucidará o fato que vou narrar.
Não sei se conheceis Copônio, velho centurião destacado daquela cidade. (...) Depois que a voz do Profeta de Nazaré havia deixado uma doce quietude na paisagem, o meu conhecido apresentou-lhe o filhinho moribundo, implorando caridade para a criança que agonizava. Vi-o elevar os olhos radiosos para o firmamento, como se obsecrasse a bênção dos nossos deuses e, depois, notei que suas mãos tocavam o menino, que, por sua vez, parecia haver experimentado um fluxo de vida nova, levantando-se de súbito, a chorar e buscando o carinho paterno, após descansar no Profeta os olhinhos enternecidos...
(...) As senhoras presentes, com exceção de Fúlvia, pareciam fundamente impressionadas com a descrição de Sulpício, inclusive a pequenina Flávia, que lhe bebera as palavras com o máximo de curiosidade infantil..."

Escrito por Fátima Fernandes às 17h40
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